Atelier 123 BIS
5 crônicas sobre um lugar.


O 123BIS e o Atelier
O 123BIS é um prédio.
Ele representa o lugar correto.
Em uma reta,
Ele é o meio entre dois pontos opostos.
Ele é a geometria do quadrado
Que encontra os quatro lados
Para formar uma figura perfeita.
E que por todas as direções
É sempre a mesma.
E após meses percorrendo o 123BIS,
Um dia descobri o seu interior.
Percorri aquele prédio antigo,
Mas belo, com uma arquitetura bem conservada.
E com uma fonte cheia de água que refletia o sol
E abastecia o ar daquele lugar
Com um ar úmido repleto de boas energias.
Foi então que encontrei o atelier.
O Atelier é o lugar dentro do lugar.
É o centro onde se produzem, tecem os fios
Da vida, da alegria, da paz, da felicidade,
Da loucura infinda pela busca
Do ser, do existir, do saber, do conhecer.
Do descobrir que
O lugar poderia ser diferente
Mas por algum motivo
É esse lugar em si.
O atelier onde tinham outros milhões e milhões
De costureiros a tecer os fios da própria vida
E com costuras quase sempre imperfeitas,
Mas com imperfeições que eram tão belas
Que era como se o que importava para todos
Não era um produto, mas o processo
De produção do atelier.
E esse processo manual era valorizado.
E o valor era tamanho que o atelier prospera
Há muito tempo.
E foi naquele momento
Que percebi que eu não vivia por viver.
Eu vivia para viver, para sentir, para experimentar,
Para saborear, para entender, para perseverar,
Para despertar, para mudar.
E todos os costureiros e alfaiates me diziam o mesmo.
E vi que mesmo com as linhas imperfeitas ainda assim
Todos nós conseguíamos costurar.
Com a paixão dos olhos, das mãos, da mente.
Os guacamayos
Por lá, no jardim
Sempre vejo um grupo de guacamayos.
Os guacamayos das mais variadas cores, texturas, plumagens.
Os guacamayos me olham nos olhos.
E sempre me dizem algo.
E quando eu os vejo, penso no mundo que habita o meu interior.
E nas energias que me alimentam e que eu alimento.
E reflito que, como os guacamayos, ou como os seagulls,
Busco o voo livre, liberto, liberador, liberado, libertado, livremente, livrador.
E lá estão os guacamayos a me ensinar os propósitos dos voos
Rumo aos horizontes mais inesperados,
Que, quando já os percebo, já é tarde demais.
Pois a vida é o acontecer presente.
É o libertar, e não me acorrentar a preocupar-me.
E com isso, os guacamayos azuis, vermelhos, verdes, amarelos do 123BIS
Me ensinam como voar.
Como abrir as asas
Não como Dédalo.
Mas com um voo consciente.
E abertamente rumo ao além-mar dos céus lapis-lazuli.






Sábio sabiá
Dentre os guacamayos, havia um sabiá.
Borboletas, flores e sorrisos
Acompanhavam o sabiá.
E ele batia as asas
Como se não houvesse
Amanhã,
Como se tivesse plumas,
Das quais aveludadas,
Como a lã das ovelhas,
E tão coloridas como
As dos guacamayos,
Mas coloridas no jeito
Único de ser do sabiá.
E assim nas florestas urbanas,
Em que caminho,
Vejo a imensidão da
Vasta natureza.
Da beleza que é
Observar o canto
Dos pássaros.
Ouvir o rugir das águas.
E cantar com as cigarras.
E tocar as flores que
Alimentam as abelhas,
A polinizar um ar amarelo
Libertador.
E voar, voar.
Livremente.
Como se esse fosse o meu fôlego para
Continuar a respirar.
Como se não houvesse amanhã.
Que será o ontem.
Que será o hoje.
Que será o agora.
Que será o que será.
Sem saber
Como sabe
O sabiá.
O sábio sabiá.
A sinestesia da alma
Depos de tamanha sinestesia,
Era chegada a hora de sair daquele
Lugar, agora transformado.
E com as energias renovadas.
E antes de sair
O sabiá me deu uma caixa de músicas.
E me disse para eu voltar todos os dias.
Enquanto tivesse vida.
Para aprender mais sobre o canto
Das aves, não somente dos passeriformes.
E para entender o porquê dos costureiros
Bordarem as imperfeições.
E então ouvi os sons,
As vozes, os ruídos,
E as músicas da caixinha.
E todas as canções eram sobre o que
Eu sentia.
E foi quando decidi que ali voltaria.
E no dia seguinte eu estava ali.
Para uma metamorfose da mente.
Para uma sinestesia da alma.
Com os guacamayos, os costureiros,
E o sábio sabiá.
O universo em um olhar
No jardim do 123BIS encontrei
Uma pupila dilatada.
E quando eu a olhei
Eu vi o universo.
Uma galáxia jamais vista.
Uma constelação nova.
Um planeta distinto.
Um cosmos complexo.
Vejo um conjunto de luzes.
De poemas. De histórias.
De veias que carregam um sangue
Pulsante.
Como as mais belas pulsares.
E como as estrelas que vejo no céu,
Vejo ainda uma coleção de
Mares azuis, esverdeados.
De nervos que conectam
Os mais diversos neurônios
E as sinapses mais profundas
Que habitam o interior do corpo.
Há de se observar que os olhares são profundos.
E que nem todos conseguem olhar tão profundamente.
Sentir esses olhares
É como uma dádiva da mãe natureza.
É como se eu pudesse ver a beleza de todo
O Universo em apenas um olhar.
