*Para ler e escutar:
Enya - Wild Child.
Mahler - Symphony No. 2 in C Minor "Resurrection", V. Im Tempo des Scherzo.
Cronologia da Memória
O presente, presente
É o tempo que nos mantém preocupados
Com o que se passou e o que virá.
Ele se fragmenta quando
Andamos pelas redes metropolitanas
Buscando o existir presentemente e
Definindo que tudo passa apesar de tudo o que passa.
Ao refletirmos sobre o que pensamos,
E ao enfrentarmos todos os nossos dogmas,
Ainda o recebemos com as masmorras do nosso pensamento.
Mas o tempo ocupa espaços de formas distintas e por onde vamos
Percebemos que nem todos percebem a pluralidade do tempo.
Para descobrir o além-mar e entender tudo o que se passa
Na fluidez do tempo
Há de se abrir o eu interior
E procurar o eu lírico que tece a vida.
E assim produzir significado do que o tempo representa
Para cada fração de momento
Diante dos diversos tempos metropolitanos ou campestres.
Ao reviver a atualidade do tempo,
Encontra-se beleza em tudo.
Como se cada gota de chuva
Caísse para formar uma sinfonia.
E como se cada vento sentido
Fosse um sopro momentâneo do passado
Que nos permite viajar rumo a outras direções.
Esvaecemos todas as nossas preocupações
Ao encontrar o ânimo para ter forças e resistir à passagem do
Que um dia foi o tempo que se transformará em um novo tempo.
E que de tempos em tempos aparece sob um sentimento nostálgico
Que nos contamina como a poeira das fábricas.
Mas o tempo massificado que sai por essas chaminés não é real
E as distorções de pensamento deixam marcas profundas na
Cor cinzenta das nossas peles enrugadas.
E respiramos esse tempo fabricado a entorpecer as nossas veias
Com tudo o que há pelo ar.
Do que nos alimenta
Um dos maiores males é pensar que sabemos o que os outros pensam.
Como se fossemos capazes de entrar na mente alheia e compreender
O que poderia estar passando por lá.
Ao final, devemos pensar como se nada do que se pensa fora da nossa mente importasse
E deixar o nosso ser despreocupado em vez de entrarmos em uma auto-inquisição sem fim.
Podemos considerar o passado e entendê-lo para logo deixá-lo para trás.
E assim viver o presente com os pensamentos que a sabedoria do tempo nos traz.
Como quando se vai de trás dos montes à procura do pôr sol e se percebe
Que o que nos alimenta é um sol quase eterno que nasce mas uma hora desaparece.
Aparecemos e reaparecemos como essa luz do sol que brilha em lugares longínquos.
Para todos os pontos que olhamos,
Rumo aos ventos do leste ou aos ventos do oeste,
Vemos tudo e todos de formas variadas e mesmo as cores do sol e dos céus
Em um espectro desde o azul celeste ao marinho ao verde azulado que encobre
As mais belas porções bem longe acima lá no mar cósmico.
Quando percebemos que há coisas distintas e formas diferentes de ser e viver,
Passamos a observar que cada estrela brilha junto a outras da mesma constelação
Mas não necessariamente com as demais fora desse conjunto.
E quando vemos que cada brilho tem uma tonalidade diferente,
Vemos que tudo se modifica.
Talvez, de todas as coisas que aprendi com os meus antepassados,
Este poderia ser um dos maiores ensinamentos.
E com ele vejo que o que nos alimenta pode ser algo como poder ver as estrelas.
E se alimentar da energia que ecoa por todos os lados do nosso grande organismo
E distribuir energias com uma alegria celular que nos contagia
Ao incorporar a nossa paz interior na nossa jornada sem fim, sem início.
Ao embarcarmos rumo a outras porções de terra,
Vemos que estamos saciados, mas reconhecemos os nossos limites.
Ainda, ainda há porções não exploradas debaixo do mar da nossa mente
Que vamos continuar explorando como se não houvesse fim.
E escavando uma porção de terra interior para nos alimentar
E garimpar tudo o que há de mais belo em meio
Ao nosso existir.
Retornos
Pode ser que quando começamos uma nova jornada,
Não sabemos se e quando retornaremos ao ponto de partida.
O retorno, o ato de regressar, carrega sempre uma bagagem perdida
Que não sabíamos que existia, mas que um dia temos de recuperá-la.
Quando se retorna a um lugar, há um misto de sensações
Por ser onde tudo começou e onde tudo começa novamente.
Um ponto de partida, e de saída para algum outro ponto.
E sentimos como se o sabor do ar ainda fosse o mesmo,
Com um gosto de chocolate derretido escorrendo pelas nossas veias
Enquanto saboreamos a doçura da vida e o reviver.
O lugar ao nosso redor, parece como uma montanha de prédios
Ao lado de um campo verde marinho cheio de girassóis.
E miramos tudo e todos com tamanha surpresa e novidade
Como se o retorno em si fosse uma redescoberta do que se passou.
Como se cada pessoa fosse um girassol passageiro naquele campo.
E como se cada raio de luz nos iluminasse por onde regressamos.
Pois sabemos que sempre depois de retornarmos a um lugar, eetornaremos a outro.
E assim continuamos a reviver memórias e construir outras mais
Em uma simbiose entre o que se passou e o que se passa.
De todo modo, retornos podem ser necessários para refletirmos sobre o que buscamos
Em meio à imensidão de girassóis e ao campo infinito de sensações que nos recordam
Que ainda há muito a conhecer.
Das mais belas harmonias
Ainda há um último suspiro de ar que
Se renova quando escutamos este som que vem das mais belas harmonias,
Garantindo que o nosso fôlego tenha um novo último suspiro.
Ao andarmos pela urbe, continuamos a encontrar essa sequência infinita de sinfonias.
Renascemos porque podemos nos reinventar e encontrar formas novas de ser e fazer.
Ao passo que nossos antepassados nos orientaram quando menos esperávamos,
Caminhamos com o lirismo que nos entorpece e
Com o ritmo que quebranta a bala que se entrava no exato
Momento em que estávamos em lugar nenhum,
Esperando o cataclisma acontecer.
Esperamos, que de tanto esperar, decidimos nos guiar e assim conseguimos.
Conseguimos.
Soldados à beira do rio
Os guerreiros se banham no rio uma vez antes da batalha
E olham no seu eu interior sentindo o que o corpo lhes conta.
Respiram uma vez e saem do rio para escutar as vozes das florestas lhes dizendo
O que deve se passar em algumas horas.
E de repente podem saber o que se passará, não somente o que se passou e o que se passa.
Mais uma vez, eles se banham e veem o espelho d'água lhes revelando a pureza de tudo.
E sentem que a força da natureza está a seu favor.
Olham para todos os lados frios e sentem a neve derretida acalentando os seus corações.
E de repente, um floco de neve cai como o leve vento que se aproxima.
E eles podem sentir o que o vento há para ensiná-los.
Ao respirarem, eles vêem coisas que os outros não veem.
Ao banharem, podem sentir emoções que os outros não entendem.
E ao estarem ali, podem ver as luzes e escutar sons que os demais não conhecem.
