Coletânea de poemas sobre o movimento.

Para ler e escutar: Samba da Bencao (versão de Bebel Gilberto) e/ou Gracias a la Vida (versão de Mercedes Sosa) e/ou Dia Clarear (da Banda do Mar).

kármicos

O além-mar

I

O além-mar tem um ponto distante.
Um ponto que não se vê,
Que não se sente,
Mas que se descobre.

O além-mar é um lugar,
Onde a terra sem forma
Se transforma e se renova
No encontro das águas.

O além-mar é o mundo além
Do espaço e do tempo,
Que, quando depois de muito tempo,
Vira um novo além-mar.

E sempre se torna terra firme,
Após percorrer muitas milhas.

II
Diante da pureza da água, antes intocável,
A terra à vista se transforma em um espaço sem fim.
Tudo se torna vapor de água, e o vento empurra todos à frente,
Rumo a novas terras.

Em uma terra infinda para os quatro cantos,
Onde cada porção de terra tem uma nova coloração:
Das terras mais brancas, vermelhas e pretas.
Das terras firmes que se moldam constantemente às terras firmes que desaparecem.

Dentre outros mil horizontes no além-mar,
Que sempre se encontra com a terra firme.

III
Quando o além-mar se colide com a terra firme,
As águas se ocupam de tudo.
E, de repente, a terra firme se transforma em mar.
O mar que carrega e leva a sua
Energia para o continente,
Como uma grande onda a moldar a terra firme.

IV
De repente, o além-mar é um novo horizonte.
Se acalma e se torna um refúgio de paz.
E a terra firme ganha novas formas de vida,
Que alimentam os mais famintos seres,
E que abastecem os mais necessitados,

Que nem podem plantar,
Mas precisam colher.
Em alguma terra firme
No meio desse mar sem fim.

Fossilizadas

Nós, do reino das formigas,

Passamos séculos a lutar.

A enfrentar o dilema entre

Corrermos ou guerrearmos

Com os gafanhotos.

Por muito tempo, pensávamos

Que se corressemos,

Seriamos devoradas no fim.

Tínhamos medo de que tais seres

Pudessem nos procurar pelo mundo.

Que por onde fossemos

Eles estariam por lá.

Afinal, eles eram medonhos e

Haviam relatos trágicos

De outros formigueiros.

Por onde os ditos-cujos passavam,
Revoltas aconteciam.

E tudo em volta se transformava

Em uma terra arrasada.

Assim, aprendemos que

Em nome da nossa existência

Como sociedade
Sempre deveriamos lutar.

E por isso
Nos sacrificávamos pelo bem de todos.

Até que um dia a nossa líder-mor

Resolveu negociar com tais seres.

E todos pensávamos que a paz com

Os gafanhotos seria como realizar

Um grande sonho milenar.

Um sonho de gerações

Que tinham pouco tempo de vida.

Mas que lutavam para que um dia

As formigas vencessem.

E assim foi decidido.

Os gafanhotos foram aceitos e vieram para

Ocupar todas as posições das operárias.

O formigueiro se transformou em um lugar aberto.

Decidimos fazer as pazes com todos os gafanhotos.

Para sempre.

E quando percebemos que a paz se iniciou

Já era muito tarde.

Hoje, somos formigas.

Fossilizadas.

Para onde vão os ventos do Leste?

Se eu procurasse

Por onde andam os ventos do leste

Esse lugar provavelmente não seria aqui.

Nessas terras inundadas pelos
Pântanos gelados.

Eles estariam por outras terras.
Das quais desconhecemos.

Somente ouvimos falar sobre.

Dizem que por lá tudo se renova.

E por isso os ventos do leste

Sempre sopram rumo ao oeste.
Para deixar os últimos resquícios

Das ruínas que se transformam em pó

E de lá voltam para compor a terra.

Em uma mistura de histórias.
Que alimentam gerações e

Perdura há tempos.


Eles percorrem o globo

Em busca de ar fresco.

E quando o encontram,

Se repousam após uma

Longa jornada.




Antes do depois

Dizem por aí
Que, depois que
Tudo se acaba,
Sempre há um recomeço.
E, após milênios,
Ao fóssil retornaremos
Para novamente
Sermos esquecidos pela
Memória.

A identidade construída,
Ao final, é uma mistura
De tudo o que vivemos,
Experienciamos,
Produzimos
E vimos
Antes do
Depois.

kármicos

Avistamos o horizonte infinito
Após chegarmos ao
Topo de uma montanha.
Nela se observa como tudo
É pequeno e grande ao mesmo tempo.
As árvores, os rios, as pessoas, os animais,
Todos aparecem e desaparecem
Em meio à paisagem.


E, no topo da montanha, percebemos que a
Montanha era sem fim.
Descobrimos que aquele era apenas
O começo de
Uma longa caminhada cósmica,
Donde sempre há uma montanha
Depois da outra.

E, quando se percorre uma
Nova montanha, lá estará a próxima.


E, após chegarmos ao topo do topo da montanha,
Havia um pássaro que há muito tempo clamava

Por um alimento.
E, quando o atendemos,
Ele se direcionou a cantar
De uma forma diferente
E em um ritmo que
Fazia o gelo derreter,
Os céus se abrirem,
E o ar ficar mais quente.


Foi quando vimos
O pássaro abrir as suas asas
E voar rumo aos outros topos de montanha,
Para levar aos outros pássaros
As migalhas de pão que havia recebido.
E, de longe, vimos
Os pássaros a cantar e a voar,
Como se tudo aquilo fosse apenas mais um dia
De vários dias no topo do topo de uma montanha.


Após alguns minutos, decidimos retornar ao sopé.
E, quando lá chegamos, uma borboleta se aproximou
Para espalhar as suas cores diante
Do intenso pôr do sol.